Cãoterapia e cão ouvinte: animais adestrados mudam realidade de moradores da serra gaúcha

Ao fazerem companhia a surdos, crianças com autismo ou que dependem de cadeira de rodas, cães adestrados mostram que podem ser bem mais do que amigos. Eles podem impactar positivamente na rotina de uma família, permitindo vivências inéditas para quem não consegue sequer saber quando a campainha de casa toca.

Um projeto liderado por um centro de adestramento da Serra ajuda a dar mais autonomia – e felicidade – a pessoas com deficiência. A ideia da equipe do Vale da Neblina, de Farroupilha, é implantar a cultura de cães como facilitadores ou ajudantes em diversas situações.

A iniciativa mais recente de Janaina Ganzer e Cesar Augusto Beux, idealizadores do centro, é a criação do cão ouvinte. Por meio de Leona, fêmea da raça terrier brasileiro, o casal de surdos Natacha Soares Perazzolo, 44 anos, e Gustavo Perazzolo, 39, consegue ter mais domínio de vivências domésticas que, antes, comprometiam o bem-estar em casa.

Exemplo: com o amparo de Fiona, eles agora ficam sabendo se alguém está batendo à porta. Ao ouvir o toque da campainha da casa, no bairro Jardim América, Leona corre para perto de Natacha ou Gustavo e toca de forma insistente, com sua patinha, qualquer parte do corpo deles. Pode parecer banal para quem tem o sentido da audição perfeito, mas se torna importantíssimo para quem precisava espiar, a cada hora, o jardim de casa para se certificar que ninguém esperava do lado de fora.

Esta é apenas uma das tarefas que Leona cumpre de forma exemplar, garantem Natacha e Gustavo, pais de Gabriel, 13, e Mateus, oito, ambos bilíngues. Ela também avisa se a chaleira de água está apitando e se o despertador do celular está tocando, por exemplo. Outras funções devem ser aprimoradas em breve pela cachorrinha.

— Ela é companheira, carinhosa, e me avisa de diversas situações. Posso colocar a água ferver mais tranquila, porque sei que se me distrair, ela vai me alertar— contou Natacha, por meio da tradutora Grasiele Pavan.

O casal foi escolhido pela equipe do Vale da Neblina por indicação de professores da Universidade de Caxias do Sul (UCS). A ideia era escolher alguém por meio de uma campanha nas redes sociais, mas o conceito de cão ouvinte é tão pouco conhecido que os que se interessaram não corresponderam ao propósito da ideia.

— As pessoas pensavam que era um cão para ficar fora de casa ou me explicavam que tinham espaço para ele brincar com outros cachorros. E não era essa a intenção — lembra a adestradora Janaina.

Marcelo Casagrande / Agencia RBS
Leona ao lado de Natacha e GustavoMarcelo Casagrande / Agencia RBS

Leona foi adestrada por pouco mais de um ano, quando aprendeu sobre marcações: afinal, ao encostar sua pata com força em alguém, é sua forma de comunicar que há algum ruído. A formação envolve treinar o cachorro para reconhecer um determinado som e, em seguida, conduzir o seu dono à fonte emissora do som. Por meses, a tarefa dela era acordar Janaina e Cesar pela manhã. Com a certeza de que a cachorra tinha o perfil ideal para a função, o período de transição na família Perazzolo transcorreu de maneira fácil. Todo o trabalho foi desempenhado de forma voluntária.

— Antes, eu não podia me distrair: se eu sabia que alguém ia chegar, precisava ficar cuidando o tempo inteiro. Agora, fico mais calmo. É um sentimento de felicidade e de momentos mais tranquilos — informou Perazzolo.

Conforme a coordenadora do curso de especialização Educação Especial em Deficiência Intelectual e Múltipla da UCS, Maria Christine Quillfeldt Carara, além de estimular a função psicomotora e sensorial, o contato com cães possibilita a aprendizagem de atividades mais instrumentais de vida diária da criança autista e ou com deficiência, além de contribuir para o processo de inclusão.

Jack ensina crianças com autismo

Marcelo Casagrande / Agencia RBS
Autista, Paulo Cesar Maia Madeira de Souza, oito anos, demonstra mais segurança ao andar com JackMarcelo Casagrande / Agencia RBS

É impossível não se comover com a aproximação de Cecília Beal, 13 anos, e o labrador Jack. Não só pela sintonia entre os dois, evidente a cada brincadeira, mas pela felicidade que a garota irradia durante a aula de psicopedagogia na clínica Jeito de Ser, em Bento Gonçalves. Jack é o protagonista das aulas de cãoterapia, comandadas pela psicopedagoga Letícia Casonatto e pela adestradora Janaina Ganzer, do centro de adestramento Vale da Neblina.

Cecília é uma das alunas que vai, semanalmente, até a clínica para interagir com o labrador e vencer medos costumeiros em crianças com autismo, caso da menina. E mais: ela aprende a ler, escrever, falar de forma mais clara e alterar positivamente seu comportamento com o convívio com Jack.

— Depois que ela conheceu o Jack, ela novamente se interessou pelas letras, pela escrita, pelo caderno. Como ela tem dificuldade com a fala, há estímulo para que consiga elaborar melhor as frases e organizar seu pensamento. A evolução dela é gigantesca — assegura a psicopedagoga Letícia.

Desde que Jack passou a ser inserido no cronograma, Cecília não faltou mais às sessões. E o que parece brincadeira é, na verdade, uma aula de alfabetização. Em uma das atividades, Jack veste uma roupa de velcro e Cecília cola as letrinhas no cão. A cada palavra que a menina monta de forma correta, recebe um latido faceiro de Jack. Cecília vibra bastante. Em outro momento, ela esconde biscoitos de Jack em cones coloridos. Ela memoriza onde está o biscoito, pronuncia as cores e dá ordens ao labrador: “Procura, Jack!” 

— A evolução dela tem me deixado muito feliz. Ela não é alfabetizada, mas esse ano, ela se interessou de novo pelos estudos. Depois que o Jack entrou na história, aumentou o senso de responsabilidade, de respeito. Ele é um incentivo muito grande para ela — confirma a mãe de Cecília, Débora Salvadore.

Ao caminhar ao lado de Jack, Paulo Cesar Maia Madeira de Souza, oito anos, também autista, demonstra mais segurança e obediência. Com o apoio do cachorro, o menino cresceu muito nas aulas oferecidas pela clínica.

— O simples ato de tocar no cão, para o autista, é um desafio. No início, ele nem conseguia encostar no Jack. Um dia desses, em uma aula, ele falou “te amo” para ele. É um ganho imenso — lembra Letícia.

Guias adestrados ajudam do cego ao cadeirante

Marcelo Casagrande / Agencia RBS
Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Está apto para entrar na pauta do dia na Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves um projeto de lei que autoriza a entrada de animais de estimação em hospitais do município. A ideia é que os mascotes possam visitar os pacientes internados, trazendo mais conforto e auxiliando no tratamento dos doentes. Haverá regras, obviamente, de higienização e entrada dos bichos – como laudo veterinário atestando a sua boa condição.

Segundo a coordenadora do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), Claudia Lautert, os benefícios que os animais podem trazer às pessoas estão comprovados cientificamente.

—  Sabe-se que o contato com o animal aumenta o nível de endorfina, que é o hormônio da sensação de prazer e felicidade. Esse contato ajuda a diminuir a pressão arterial e, por consequência, reduz o hormônio do estresse, o cortisol. Independentemente da doença, se é depressão, autismo ou qualquer outra condição, há diversos benefícios — aponta Claudia.

No Brasil, o serviço mais conhecido é o dos cães-guia para cegos e pessoas com baixa visão. Existe legislação, inclusive, que permite que cegos possam entrar em qualquer estabelecimento público ou meio de transporte na companhia destes animais. 

Tramita no Senado um projeto que estende essa lei para outra modalidades: aos cães ouvintes, que alertam pessoas com deficiência auditiva sobre sinais sonoros; aos cães de alerta, cujos sentidos aguçados percebem quando alguém pode ter uma crise diabética, alérgica ou epilética; aos cães para autistas, que ajudam a confortar o usuário durante eventuais crises; e aos cães para cadeirantes, que abrem e fecham portas, pegam objetos pouco acessíveis ou caídos no chão e apertam botões de elevadores:

— Ele se torna um recurso terapêutico, oferecido por profissionais que escolhem o animal e o que ele pode oferecer à pessoa. E o cão entende quando está à trabalho. Prova disso é que não devemos brincar com um cão-guia, porque ele entende que não é hora de brincadeiras. E isso pode distrai-lo — explica a coordenadora do curso de Terapia Ocupacional da FSG, Claudia Scolari.

As raças mais propícias para adestramento são golden retriever, labrador, border collie e pastor alemão, entre outras.

Fonte: Gaúcha ZH

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