Governo Temer ameaça curso da UFPB que insere surdos na comunidade científica

Edjane Cardoso, 23 anos, nasceu surda devido a uma rubéola que a sua mãe adquiriu durante a gestação. Quando ela tinha apenas quatro anos de idade, iniciou fonoaudiologia para aprender a linguagem oral, algo que ela desenvolve muito bem. A partir dos 14 anos, Edjane já sabia a Língua Brasileira de Sinais (Libras), uma forma de comunicação entre os deficientes auditivos e segunda língua oficial do Brasil. Ela conta que durante um tempo estudou numa escola particular, mas enfrentou bastante dificuldade, pois não haver uma metodologia inclusiva. Além da ausência de um intérprete, ela era a única aluna surda na escola.

“Apesar disso, eu nunca fui reprovada, sempre fui esforçada. Mas percebia preconceito por parte da escola, que muitas vezes me afastava das atividades e das outras pessoas por eu ser deficiente auditiva”, relata Edjane. Os percalços cotidianos não foram empecilhos para que a jovem desistisse ou se limitasse. Posteriormente, ela iniciou os estudos numa escola estadual inclusiva. E foi nesse período que ela teve a oportunidade de participar de um curso experimental para inclusão social de surdos por meio da ciência.

“A professora intérprete de Libras, Josi (josineide Castro, que também é colaboradora do curso, me chamou para participar quando eu estava no nono ano. No início, eu tive medo, mas fui me soltando, aprendendo e acabei sendo selecionada para o estágio que eles oferecem. Depois fui monitora, repassando tudo que aprendi para os outros estagiários. Foi uma experiência maravilhosa e eu só tenho que agradecer”, disse a atual estudante de graduação de Letras Libras.

O curso experimental ao qual Edjane se refere faz parte do projeto ‘O Surdo Cientista’, coordenado pela professora Sandra Rodrigues Mascarenhas, vinculada ao Centro de Biotecnologia (CBiotec), Departamento de Biologia Celular e Molecular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O projeto ‘Surdos’ foi idealizado em 2005, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelos professores Leopoldo de Meis e Vivian Rumjanek. A partir de 2007, a imunologista Sandra Mascarenhas, que participava do mesmo projeto na UFRJ, adaptou e o efetivou na UFPB.

“A gente foi pesquisar e viu que não tem absolutamente nada para os surdos. Não existe projeto, ainda mais relacionado à ciência. Aí pensamos, ‘vamos fazer!’. O objetivo do projeto é inserir o surdo na comunidade científica. Para isso, utilizamos a ciência como ferramenta, estimulando a descoberta de talentos, o conhecimento, o acesso à universidade e a verdadeira inclusão social. Aqui não tem ‘peninha’, nem paternalismo, os surdos vêm trabalhar igual a todo mundo, com erros, acertos e consertos. O tratar como ‘coitadinho’ é o que me incomoda”, afirma Sandra.

O projeto oferece cursos de biociências voltados para alunos surdos do ensino médio, com durabilidade de uma semana, pela manhã e tarde. Cerca de 15 estudantes de várias escolas inclusivas ou não são selecionados para participar. Três professores intérpretes de Libras, sejam surdos ou que trabalhem com inclusão, são contratados para auxiliarem no curso. Pelo menos sete alunos de pós-graduação de biotecnologia colaboram como monitores na realização de experimentos laboratoriais por meio de uma metodologia construtiva. Os cursos ocorrem duas vezes a cada ano.

“As aulas não são formais, não exige nenhum pré-requisito de informação e os alunos participam ativamente, sugerindo as perguntas que serão respondidas por meio de experimentos. Buscamos oferecer ao jovem surdo a possibilidade de integrar-se aos avanços da ciência, desenvolvendo o método e o pensamento científico, em vez de simplesmente receber informações. E para isso é necessário apenas ter interesse. A gente trabalha com isso, com o interesse em aprender”, disse a cientista Sandra.

Os alunos que mais se destacam nos cursos são selecionados para estagiar no laboratório de imunobiotecnologia, geralmente durante oito meses, recebendo uma bolsa. Durante o curso experimental, os professores que participam também são beneficiados. Os intérpretes precisam ser treinados para aprenderem a linguagem científica. Como qualquer língua, a Libras é resultado de um processo criativo. A necessidade de expandir o vocabulário está levando ao desenvolvimento de nova terminologia.

“Está sendo desenvolvido, no projeto ‘Surdos’ da UFRJ, um glossário científico em Libras, pela necessidade de novos termos, novas palavras de sinais. Por exemplo, meio de cultura é um meio onde as células crescem. Meio, para o surdo, é metade, não é ambiente. Então foi preciso criar um sinal que especificasse a palavra meio com este significado. O mesmo ocorre com cultura, bactéria, imunologia e tantas outras palavras. E durante a semana do curso, os intérpretes são treinados nesse sentido, tem todo um trabalho”, explica a professora.

Para a realização das atividades científicas, durante uma semana, são necessários R$ 10 mil, segundo a coordenadora. “É tudo muito caro, o material que usamos, reagentes, pipetas, apostilas adaptadas, pagar intérpretes”, citou Sandra. Ela conta que o projeto ‘O Surdo Cientista’ tem o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Entretanto, com o atual governo, o projeto se encontra sem verba e Sandra faz um apelo.

“No momento, com o governo do jeito que está, a gente não tem verba. O próximo ano será o primeiro em que não vamos ter como realizar o curso. Por isso nós fazemos um apelo para que financiadores se mobilizem. Essas empresas grandes aí, que quiserem conhecer o nosso trabalho e ajudar, pelo menos enquanto a gente não consegue verba federal, seriam muito bem-vindas. É um projeto maravilhoso, de real inclusão dos surdos em que eles são valorizados. Não funciona como cotas, tem muito mais a ver com empatia, sabe?”.

De acordo com estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo 2010, quase 10 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva, o que representa 5,1% da população do país. No que se refere a idade, quase 1 milhão são crianças e jovens até 19 anos. Apesar dos números, a surdez é um assunto pouco falado por grande parte dos brasileiros.

Prova disso foi a repercussão do tema da redação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) deste ano. Os estudantes tiveram que fazer um texto dissertativo sobre ‘Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil’. O tema surpreendeu e desagradou muitos candidatos. A coordenadora do projeto ‘O Surdo Cientista’, Sandra Mascarenhas, ressaltou, por meio de uma carta, divulgada em rede social, a importância de discutir um assunto relevante como esse. “Um maravilhoso sentimento de inclusão social. A educação de surdos como tema de redação do Enem iniciou um debate para uma parcela da população invisível à maioria da sociedade”, diz o início da carta.

Contudo, boa parte dos candidatos à prova, e da sociedade, reclamou, por entender que a problemática é muito específica. Houve alvoroço na internet. “Veio a contradição e a polêmica. As opiniões cheias de preconceito e ódio, daqueles que não enxergaram a importância da representação dos surdos, que sempre foram segregados e constituem uma minoria”, cita a coordenadora no mesmo texto.

José Guilherme Galvão, aluno de doutorado da professora Sandra, trabalha com a comunidade surda no projeto ‘O Surdo Cientista’, desde 2012. Ele afirma que a inclusão ocorre 100%. “Eles chegam achando que a gente vai tratar eles de forma diferente. Quando percebem que estão em um universo em que podem se encaixar de forma igualitária, sem sofrer nenhum preconceito, eles se liberam. A diferença de aprendizado de um aluno ouvinte e um aluno surdo é grande, porque eles dão muito mais valor as informações que a gente passa para eles. Então se você parar para analisar isso, entende perfeitamente o objetivo do tema da prova”, garante.

Para José Guilherme, o tema despertou nas pessoas a reflexão sobre inclusão social. “Eu sei que muita gente, na primeira leitura, achou que a redação cobrava teoria pedagógica. Mas na verdade era para entender o conceito de inclusão desse público, na educação. Se você está se preparando para um vestibular, certamente sabe falar de algo tão relevante. Não justifica esse sentimento de revolta. Até porque, aqui na Paraíba, a educação para surdos é melhor do que em muitos estados. Eu sei porque, nós recebemos muitos alunos aqui, e a assistência é boa. Mas a gente sabe também que não é uma realidade comum no Brasil. Então é só se colocar no lugar do outro que encontramos argumentos para uma redação inteira”, confirma.

Anne Kaliery de Abreu Alves também foi tutora de alunos surdos participantes do projeto e afirma que a verdadeira inclusão ocorre quando há troca de aprendizado. Algo comum, segundo ela, na rotina do laboratório, em que os surdos interagem positivamente. Para Anne, o tema é válido e merece a devida atenção. “A proposta da redação contribui muito para que as instituições educacionais coloquem o tema em discussão, em busca de intervenções. É uma realidade nossa, nós não podemos nos esconder disso. É algo que faz parte do nosso país. Então não entendi o porquê de tanta polêmica, uma vez que a inclusão social é um assunto que vem sendo debatido há muito tempo e envolve todas as classes”, defende.

Fonte: A União

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