Intérprete de Libras do STF traduz bate-boca e ‘juridiquês’ para surdos; veja dicionário

Dânnia Vasconcellos aprendeu língua de sinais aos 6 anos, e trabalha com tradução desde os 15. Veja como são expressões mais comuns no Supremo.

O julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), na última semana, voltou os olhos do país, outra vez, para a cúpula do Poder Judiciário. No fim de março, os holofotes ficaram por conta da troca de acusações entre os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes.

Enquanto o público ouvia atento aos longos discursos, 1 em cada 20 brasileiros tinha os sentidos voltados para um quadradinho no canto inferior direito da tela, onde ficam os intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Desde 4 de outubro, todas as sessões plenárias da Suprema Corte contam com o serviço.

A brasiliense Dânnia Vasconcellos, 33 anos, é uma das responsáveis por levar informação aos que antes ficavam “no escuro”.

“O surdo é um estrangeiro no próprio país”.

Para ajudar ouvintes, não ouvintes e intérpretes, Dânnia ensinou o G1 a criar um pequeno glossário da linguagem jurídica em Libras (confira os gifs animados ao longo da reportagem). Alguns gestos guardam relação com o próprio significado – é o caso do “voto” (que faz referência à urna) e da Justiça (que imita a balança da deusa Têmis).

‘Juridiquês’: e agora?
Profissional da área há 18 anos, Dânnia já trabalhou na tradução de cultos religiosos, aulas de culinária, peças artísticas, cerimônias, fóruns, eventos diplomáticos e até em funerais.

Hoje, concilia as tarefas com um emprego regular na Universidade de Brasília (UnB) e o serviço terceirizado no STF, duas vezes por semana – às quartas e quintas, quando há sessão plenária.

Ao longo de toda a carreira, nenhum trabalho foi tão complexo quanto traduzir os discursos na corte máxima do Poder Judiciário brasileiro.

“O vocabulário é muito específico e exige muito estudo. Tenho muito medo de fazer algo errado, mesmo hoje já estando mais acostumada”.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida legalmente pelo governo brasileiro como uma língua nacional apenas em abril de 2002. Apesar disso, diferentemente do que prega o senso comum, o idioma não é a segunda língua oficial do país – para isso, toda a documentação legal teria de estar traduzida também em Libras.

Outro obstáculo é a falta de correspondência linguística entre Libras e português. Isso significa que, por não haver uma derivação clara, muitas palavras não têm tradução entre si. É o caso, por exemplo, da expressão latina “habeas corpus” e de termos não literais, como “ficha limpa”.

Para traduzir, os intérpretes têm duas opções: a soletração (ou datilologia, no caso dos sinais), ou a adaptação de outros gestos para gerar significado. O exemplo mais extremo, segundo Dânnia, é justamente uma das interpretações mais requisitadas: o Hino Nacional.

“É uma das coisas que mais odeio fazer. É muito difícil, cada um faz de um jeito. Não há consenso entre a comunidade surda. Ninguém sabe fazer o hino, essa é a verdade.”

O debate acalorado
No último dia 21, a tradutora viveu o ápice da tensão em um trabalho já estressante. Nesse dia, ela teve de traduzir a troca de acusações entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.

“Eu estava muito concentrada. Demorei a perceber que aquilo estava realmente acontecendo. Foi engraçado e estranho ao mesmo tempo”, relembra.

“Pensei: ‘como assim? Ele (o ministro Barroso) está mesmo xingando? Está sim!’”.

A discussão exigiu de Dânnia muita capacidade de interpretação e adaptação do discurso. “Eu não podia fazer sinais chulos, porque ele não estava sendo agressivo dessa forma. Tinha de ter responsabilidade. O discurso não é meu, mas as escolhas tradutórias são”.

Militância
Dânnia não é surda nem possui nenhuma deficiência. Mesmo assim, ela aprendeu Libras aos 6 anos para ajudar a tia a se comunicar. Desde então, escolheu dedicar a própria vida a lutar pela maior acessibilidade da comunidade surda.

“Tenho familiar, sou militante e trabalho com isso. Me envolvo demais com a causa porque convivi com minha tia e vi o quanto é difícil”, diz.

Segundo o último Censo do IBGE, em 2010, existem cerca de 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva no país. O número corresponde a quase 5% da população. No DF, são 104.825 entre os mais de 3 milhões de habitantes.

“Os surdos, que nasceram com a deficiência, muitas vezes não falam português. Ele precisa saber ler e escrever mas as políticas de educação ainda não fornecem esse subsídio.”

Em Brasília, apenas a Escola Classe 21, de Taguatinga, ministra aulas em português e em Libras. A instituição pública atende cerca de 300 surdos e ouvintes (pessoas sem deficiência auditiva) no mesmo espaço.

Na UnB, hoje, estima-se que estudem mais de 20 alunos surdos, e que haja nove professores com deficiência auditiva no corpo docente.

“Eles existem e têm capacidade de trabalhar em qualquer setor, não só nas áreas de limpeza. Só precisam de acessibilidade, e isso é dado com os intérpretes”.

Fonte: G1 Globo

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