Padre surdo celebra missas em Libras e trabalha para a inclusão no Paraná: ‘Aquele medo se transformou em ajuda’

Wilson Czaia coordena pastoral para deficientes auditivos em Curitiba e relata dificuldades que vive no dia a dia por causa do preconceito.

O Padre Wilson Czaia, de 49 anos, transformou a dificuldade que vivia, por ser surdo, em incentivo: hoje celebra missas na Língua Brasileira de Sinais (Libras), desenvolve atividades de inclusão e ensina Libras na paróquia onde trabalha, em Curitiba.

O sacerdote afirma que, atualmente, é o único padre surdo a celebrar missa.

“Hoje eu sou o único em atividade, mas espero que surjam outros”, diz.

Em outras comunidades, o que existe, normalmente, é a presença de um intérprete que traduz o discurso do padre para Libras.

Em todo o Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , são 9,7 milhões de surdos. No Paraná, são aproximadamente 500 mil pessoas com algum grau de deficiência auditiva.

Os números fazem parte do último Censo Demográfico, de 2010.

Há 16 anos, em abril de 2002, a Libras passou a ser considerada, por lei, uma língua nacional. Isso significa que, depois do Português, Libras é a segunda lingua oficial do país.

Apesar do tempo, a realidade mostra que a linguagem não está dissemindada no país.

Na capital paranense, a Paróquia Nossa Senhora da Ternura, onde Czaia é pároco, por exemplo, é a comunidade na cidade com celebrações em Libras.

Comunidade
A aceitação e a participação da comunidade, segundo o padre, foram conquistadas com o tempo. Há sete anos, a Paróquia Nossa Senhora da Ternura recebeu o sacerdote, determinado a começar o trabalho de inclusão com a pastoral dos surdos.

“Nunca tinham ouvido falar que existia um padre surdo, que a comunidade surda estava vindo para cá, então, ficaram amendrontados. Mas hoje aquele medo se transformou em ajuda”, ressalta.

Além do ensino de Libras e das missas semanais na comunidade, que reúnem fiéis com e sem deficiência auditiva, Czaia também celebra casamentos na linguagem de sinais e viaja por paróquias de vários estados do Brasil.

Ele ressalta que os surdos têm conquistado espaço e que devem ser respeitados dentro e fora das comunidades.

“Graças a Deus é um orgulho para nós, hoje, termos surdos na faculdade, estudando, surdos aprendendo, trabalhando, e também vindo na nossa igreja”, afirma.

Dificuldades
Czaia nasceu com surdez total. Com o tempo, passou a usar um aparelho que lhe permite sentir vibrações sonoras, apenas para se orientar.

Padre Wilson conta que, desde criança, enfrenta dificuldades por falta de acessibilidade.

Ainda na época da escola, acompanhava as aulas sem conseguir entender totalmente o que os professores ensinavam. Para Czaia, sempre foram necessárias a ajuda de colegas e muita determinação para aprender.

“Não tinha muitos intérpretes naquela época. Eu ia para a escola, faculdade, palestras e apenas eu era surdo. Muitas pessoas tentavam me ajudar, mas eu me sentia excluído, muita coisa eu não entendia”, relembra o sacerdote.

No dia a dia, o preconceito também causa transtornos a ele, como por exemplo, ao usar o direito à fila preferencial em uma agência bancária.

“Muitas pessoas começam a reclamar. Já cheguei a ter que voltar para a fila geral para não ter problema com aquelas pessoas que não respeitam, não entendem que existem leis que amparam os deficientes”, ressalta.

Os mesmos problemas, segundo o sacerdote, fazem parte da realidade de outras pessoas com deficiência.

“Graças a Deus as leis estão evoluindo e sendo mais vistas, mas muitas vezes no trabalho ou em outros ambientes, os colegas dos surdos não estão preparados para conviver com eles”, diz.

Em 2012, padre Wilson teve que recorrer à Justiça para conseguir cancelar um cartão de crédito de uma loja. Ao contratar o serviço não houve problemas. Entretanto, a empresa informava que somente o titular do cartão poderia fazer a solicitação de cancelamento e que deveria ser por telefone.

Fonte: G1 Globo

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