Pais surdos criam página para mostrar desenvolvimento de filha de 2 anos, também surda

RIO — Quando gaúcha Fiorella Cantarelli, de 2 anos, foi diagnosticada como surda, aos 4 meses de vida, seus pais, que também são surdos, começaram a pesquisar sobre formas de ajudar no aprendizado e desenvolvimento de outras crianças. Para isso, criaram a página no Facebook “O diário de Fiorella”, voltado para pais surdos com filhos surdos. Com o tempo, a mãe, Francielle Cantarelli, de 29 anos, disse ter se deparado com muitas famílias ouvintes com dúvidas sobre os estímulos indicados, assim como a inclusão escolar. Foi assim que ela e o marido, Fabiano Rosa, decidiram ampliar o objetivo da página, passando a publicar um conteúdo acessível para todos.

— Percebemos que apenas 5% dos pais surdos têm filhos também surdos no país. Como não é algo comum de encontrar, resolvemos iniciar a página para abrir a discussão sobre isso.

No entanto, Francielle contou que o desenvolvimento da filha não é diferente das crianças ouvintes.

— A única diferença é que Libras é visual-espacial. Foi necessário, então, expandir a página para que todas as famílias pudessem acessá-la e perceberem que bebês e crianças surdas podem se comunicar em Libras, como as outras que se comunicam em português — explicou.

A língua brasileira de sinais (Libras) é reconhecida em lei como a segunda oficial do país e, para a mãe de Fiorella, “as famílias precisam se adaptar e adotar a ideia sobre ela”.

— Muitas pessoas acham que intérpretes servem para surdos de todas as idades, mas para as crianças surdas não, porque são pequenas para conseguir acompanhar e também ainda estão aprendendo Libras — frisou.

Na página “O diário de Fiorella”, que contabiliza mais de 77 mil curtidas, os pais mostram vídeos de conversas entre eles, como forma de exemplificar que o aprendizado da Libras pode ser direcionado a crianças pequenas.

— Quando eu e Fabiano confirmamos a surdez da Fiorella, em abril de 2015, saímos do consultório e pulamos de alergia. Mas pulamos de alergia porque ela é surda como nós? Não, nós ficamos aliviados porque tivemos certeza. Antes, tínhamos desconfianças, não tínhamos um diagnóstico pronto. Quando o exame de Bera confirmou a surdez da Fiorella, vimos muitos artigos e pesquisas sobre estimulação e aquisição de língua de sinais para crianças surdas que começam a entrar em contato com a Libras tardiamente, por volta dos 4 anos de idade, mas esse não era nosso objetivo. A Fiorella nasceu com a Libras, a primeira língua dela — salientou a mãe da menina.

Quando Francielle soube que o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi sobre os “desafios para a formação educacional dos surdos”, contou ter ficado muito emocionada e, a princípio, “pasma e chocada”. Ela estava num churrasco com a família, no último domingo, e aproveitou o momento para comemorar a escolha do tema que, para ela, foi uma conquista para a comunidade surda.

— Estava no churrasco com a minha família, recebi muitas mensagens sobre o tema da redação. Eu não acreditava, então resolvi pesquisar na internet e era mesmo. Fiquei pasma e chocada! Demorei a cair na realidade, pulei de alergia, aproveitei para comemorar no churrasco! — celebrou a mãe de Fiorella. — Neste ano, a comunidade surda teve duas conquistas: o Enem em Libras e o tema da redação — completou Francielle.

Francielle quis que a filha começasse a aprender Libras o mais cedo possível – Facebook/Reprodução

Apesar de ter visto o tema como desafiador para quem fez a prova, ela acredito que “eles vão abrir a mente para entender sobre mundo dos surdos e ver que nós existimos”. Entre os pontos mais necessários para a inclusão dos surdos numa escola regular, com base na experiência dela, estão a adaptação, por meio do oferecimento de “professores bilíngues, intérpretes tradutores de Libras, materiais e didáticas adaptadas, principalmente, assuntos que professores e alunos devem discutir, como preconceito, integração, comunicação, respeito e desigualdade”.

— Sempre fomos e ainda somos invisíveis da sociedade. A luta nunca vai parar, sempre lutamos pelos nossos direitos, nossa língua, nossa educação, entre outros — afirmou Francielle, destacando que o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) completa 160 anos neste ano. — É a primeira instituição de educação dos surdos do Brasil, muito importante para a comunidade surda — acrescentou.

Francielle relatou que estudou numa escola regular, mas não teve boa experiência devido, principalmente, ao preconceito.

— Não tinham materiais e didáticas adaptados para alunos surdos, por isso, eu queria que Fiorella tivesse uma educação diferente da que tive. Decidi colocá-la na escola dos surdos na minha cidade. Ela foi matriculada aos 6 meses de idade. A escola tem um programa de estimulação precoce, duas professoras (uma surda e uma ouvinte). Até hoje ainda está frequentando o programa, que dura duas horas por dia. Nosso objetivo foi integrá-la com outras crianças surdas para que ela pudesse mergulhar no mundo dela (o mundo dos surdos). A escola promove teatro surdo, literatura surda, contos em Libras, entre outras atividades — afirmou.

Fiorella, de 2 anos, está em duas escolas, uma para surdos, e uma regular – Facebook/Reprodução

No entanto, Fiorella também estuda pelo mesmo período de duas horas por dia numa escola regular que passou a oferecer uma professora bilíngue e um assistente também bilíngue depois que a mãe dela conversou a diretora, explicando a importância e necessidade da adaptação para os surdos. A mãe dela explicou que o objetivo foi promover uma interação entre os “dois mundos”.

— Ainda não decidi qual dessas escolas ela vai ingressar quando completar 5 anos de idade. Mas nesta escola regular, Fiorella conseguiu uma professor bilíngue, um assistente bilíngue, materiais e didáticas adaptados e visuais. Percebemos também que ela se adaptou bem com crianças ouvintes — contou.

Fonte: O Globo

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