‘Sou feliz aqui na escola’, diz aluno surdo que ajuda colegas a compreender língua de sinais

Escola municipal em Jaboticabal, SP, adotou a Libras em todas as salas depois que os demais alunos se mostraram interessados em aprendê-la. ‘Inclusão foi inversa’, diz diretora.

Pela inclusão social, estudantes formam coral de surdos em Jaboticabal, SP

Pela inclusão social, estudantes formam coral de surdos em Jaboticabal, SP

Em uma das turmas da Escola Municipal Senhora Aparecida em Jaboticabal (SP), o estudante Carlos Eduardo Pereira da Silva está prestes a concluir não só o ano letivo, mas também a tarefa de ajudar os colegas a tirar ‘nota 10’ em uma disciplina especial.

Aos 10 anos, Carlos Eduardo tem baixa audição, mas o desafio de aprender em uma sala de aula com alunos que ouvem perfeitamente ganhou novos rumos quando a classe toda se mostrou interessada em fazer o caminho inverso da inclusão.

Com isso, a turma ganhou o reforço das tias intérpretes Cristiane Malerba Caraski e Damiana Ramos Bonfim, que além de auxiliar os alunos surdos, assumiram a missão de ensinar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) a quem nunca enfrentou problemas para ouvir e que se mostrou sensível ao se deparar com a dificuldade dos amigos.

O resultado é uma classe bilíngue e integrada, que desde cedo aprende junta o significado da palavra cidadania.

“Fico muito feliz aqui na escola, todo mundo gosta de conversar e brincar comigo. Diversão não tem língua”, diz Carlos Eduardo.

Interesse espontâneo

Há três anos, a escola municipal de ensino básico no bairro Aparecida se tornou bilíngue. O projeto ganhou força depois que os próprios alunos demonstraram curiosidade em aprender a língua que fala com as mãos, ao terem contato com os primeiros colegas surdos.

Ao observar os gestos da professora, João Vitor da Silva deu os primeiros passos para aprender a se comunicar por sinais.

“A tia Cristiane fazia pra eles, eu ficava vendo e repetia. Achei muito bacana aprender isso”, diz.

Segundo a diretora Janine Pito, os próprios alunos perceberam a necessidade de se incluírem no universo dos surdos e chamaram a atenção da escola para a extensão da linguagem. Atualmente, eles estudam língua portuguesa no período da manhã, e a Libras à tarde.

“O que aconteceu aqui foi o processo inverso. Eles sentiram a necessidade de se incluir, então eles aprenderam e estudam até em casa para poderem se comunicar com os surdos.”

O interesse natural surpreendeu até mesmo a professora Cristiane, que atuou por sete anos em escolas especiais para surdos.

“Os próprios alunos ouvintes foram apreendendo para ter esse convívio e comunicação na sala de aula, durante o recreio. Houve uma interação boa e eles se dão muito bem. Não dá nem para perceber quem é surdo e quem é ouvinte quando você entra na sala”, afirma.

Após se interessar pelos gestos da professora com a chegada dos novos colegas, João Vitor da Silva começou a estudar os sinais em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Após se interessar pelos gestos da professora com a chegada dos novos colegas, João Vitor da Silva começou a estudar os sinais em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Troca de experiências

O relato de Cristiane é confirmado pelos próprios alunos. Basta observar a sala por alguns instantes para perceber que, entre os sons das palavras e os movimentos das mãos, todos se entendem. E se fica alguma dúvida, a oportunidade é propícia ao aprendizado.

“Cada vez que conversamos em língua de sinais a gente vai apreendendo”, diz o estudante Guilherme Martins Barbalho.

“Eu sou surdo e uso libras para me comunicar. Estudo diferentes coisas, consigo conversar com todos os meus amigos”, afirma Luiz Fernando dos Santos Silva.

Para Carlos Eduardo, saber que os colegas estão se esforçando para compreender a língua de sinais o deixa mais seguro para seguir adiante.

“Acho legal os meus amigos fazerem libras, dá pra conversar e brincar. Fico muito feliz em saber que os meus amigos falam libras, pra mim é bem mais fácil.”

O comportamento dos alunos inspirou ainda a implantação de outro projeto dentro da escola. Frequente na vida dos alunos desde o início deste ano, a música é usada como forma de levar mensagens educativas, abordar assuntos como o bullying, e de celebrar datas festivas.

Por meio de sinais, alunas se entendem com a professora durante atividade em escola em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Por meio de sinais, alunas se entendem com a professora durante atividade em escola em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Mãos que cantam

Durante uma das atividades, a diretora percebeu que enquanto as músicas eram cantadas pelo grupo e ao mesmo tempo interpretadas pela professora Damiana, os outros alunos acompanhavam com a Libras. Desta forma, os surdos foram inseridos no coral da escola. Dos 30 cantores, 5 são surdos.

“Muitos estranham essa ideia de um coral de surdos, mas é muito emocionante. A maioria diz ‘mas eles não escutam!’. Realmente, mas o som também é vibração, e eles gostam muito de cantar, dançar. É o jeito que eles se comunicam”, diz Damiana.

Com as mãos, Luiz Fernando evidencia a argumentação da professora para aqueles que contestam a capacidade das crianças cantarem.

“Eu consigo sentir a música mesmo sem poder ouvir. Através da libras, sinto a música com muito amor”, diz.

Para integrar os alunos, as músicas e seus significados são estudados em sala de aula, e só depois o coral segue para as apresentações.

“O intuito maior é a comunicação do surdo com a sociedade, não só aqui dentro da escola. É também o de tocar o coração da sociedade e mostrar que eles são capazes de se comunicar, e que a sociedade é capaz de se comunicar com eles”, afirma Damiana.

Alunos cantores acompanham a tia Damiana durante apresentação do coral em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Alunos cantores acompanham a tia Damiana durante apresentação do coral em Jaboticabal, SP (Foto: Carlos Trinca/EPTV)

Fonte: G1

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