Surdos: estrangeiros no seu País

Para as pessoas surdas brasileiras, aprender o português é tão difícil quanto pronunciar o “r” enrolado do inglês para os ouvintes. Para aumentar as barreiras, a maior parte dos professores da educação básica não têm formação adequada em Libras e não conseguem ensinar aos alunos surdos de uma maneira específica. Por esses e outros motivos que o maior calvário desses estudantes na escola é ter que aprender a escrever a língua portuguesa como se esquecesse da própria surdez.

Focado em mostrar que alunos surdos, apesar dos empecilhos, podem escrever, a professora de redação Sandra Lima procurou entender a construção de coerência e coesão nos textos de jovens na sua pesquisa de mestrado, realizada no Departamento de Ciências da Linguagem da Unicap e terá continuação no nível de doutorado.

“Não é pela condição da surdez que existe a dificuldade no aprendizado da língua portuguesa, são as estratégias usadas para ensinar que não condizem com as necessidades”, concluiu a professora. As respostas estão, na prática, mais especificamente no cotidiano da estudante surda Letícia Lima, 18, que usa o Whatsapp para se comunicar por escrito com amigos e família.

Letícia usa Libras (A Língua Brasileira de Sinais) para se expressar e encontrou dificuldades para aprender a escrever em português, por causa da construção diferente das frases – nos sinais não há sujeito, verbo e predicado. Ela teve contato com a língua aos 7 anos, depois de ter sido alfabetizada em sinais. “Li muito gibi quando era pequena e as palavras que eu desconhecia, sempre perguntava o sentido. Hoje eu gosto de me comunicar escrevendo nas redes sociais, consigo entender fácil e as pessoas também me entendem”, contou, por meio do intérprete André Felipe. Ela estuda psicologia na Faculdade Estácio de Sá, que conta com aulas gratuitas de Libras para o público em geral.

Ao chegar na escola com seis ou sete anos, a criança que escuta já tem uma noção básica do português. Ela pode até não saber escrever a palavra casa, por exemplo, mas compreende o significado (o conteúdo) e o significante (a forma, a sonoridade da palavra). É diferente com o estudante surdo – ele vai aprendendo a língua escrita sem conhecer nem o conteúdo, nem a forma.

Apesar da gramática não-convencional, há coerência e coesão nas produções textuais elaboradas por estudantes surdos. “A ausência de conectivos, preposições e artigos causam estranhamento e alguns professores até acham que o texto não tem sentido.

Tive dificuldade na própria pesquisa pela falta de textos produzidos por alunos surdos, pois os professores não incentivam a escrita. Mas o que encontrei é que existe contexto, coerência e tudo o que tem nos textos dos ouvintes, com diferenças gramaticais. A diferença é que é um texto mais tímido, com poucas linhas”, apontou Sandra. “Sem saber libras, os professores de português acabam o isolando os alunos surdos em sala de aula, que só prestam atenção ao intérprete, quando ele existe”, acrescenta Walmira Cavalcanti, especialista em Ciências da Linguagem e orientadora da pesquisa de Sandra.

A professora de Libras Conceição Marinho é alfabetizadora de crianças surdas há 10 anos e trabalha com educação inclusiva há mais de 30. Ela conta que, atualmente, o método mais eficaz de aprendizado é o bilinguismo dos alunos, ou seja, fazer com que eles aprendam as duas línguas simultaneamente. “Quando aprendemos duas línguas equanto jovem, as duas viram línguas mães. Depois disso, ele vai escrever pensando na língua de sinais e não no português. O professor precisa corrigir dentro desse contexto, inclusive. O estudante precisa da língua portuguesa para se constituir enquanto sujeito de formação”, explicou.

Fonte: Folha PE

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